Toda a semana madame Karina
recebe a visita de sua pedagoga.
É a Mary, que pinta e borda
as unhas de seus pés.
Durante a tarefa elas
conversam sobre as novelas que assistiram no
dia anterior e travam ilações
sobre o que acontecerá nos novos
capítulos, assunto, como se vê,
altamente instrutivo.
As novelas que assistem são
as de uma emissora de TV de grande
porte e que leva a cabo a já
diminuta mentalidade do povo de um lugar
chamado Tupiniquim.
Elas estão, portanto,
altamente GLOBALIZADAS.
Zulu, a nova empregada doméstica
de madame Karina é formada em
Ciências Naturais e tem
doutorado em Botânica mas como não
encontrou emprego em nenhuma
Universidade de seu Pais aceitou trabalho
não condizente com sua cultura pela segurança:
“Carteira assinada, direitos
trabalhistas etc.”
Zulu, anda intrigada com a
conversa entre a patroa e sua demagoga.
De quando em vez, passa por elas
com a boca meio entreaberta.
Tenta decifrar que bicho anda
mordendo essas duas criaturas.
Que falta de assunto!!!!!!
Contudo, o que se há de
fazer, pensa ela.
As Faculdades no País inteiro
estão fechadas por falta de verba e a
mentalidade dos políticos
embotadas por falta de verbo.
Só resta cumprir sua tarefa e
deixar de bisbilhotar conversas
entre a patroa e sua pedóloga.
Afinal, o que se pode esperar
do País das contradições.
“extraído da vida real com
algumas interferências extemporâneas”