sábado, 6 de agosto de 2016

FELIX E O ESPELHO 09 08 2016

                                 
                
Felix possui   um espelho em seu banheiro e em um dia qualquer, antes de tomar banho, estando a olhar  sua imagem projetada   no dito,  põe-se   reparar   que suas      orelhas   e  nariz    estão     mais compridos do    que dantes que      sua barriguinha,     mesmo que    seja     magro ,                acelera cada     dia e seu órgão     reprodutor  cai em desgraça e as pernas já pesam  mais.
Parece que   faz sentido   a lei gravitacional agir contra ele na medida em que adquire    mais idos de anos, supõe Felix.
Na verdade, aqui digo eu:
“Felix  não consegue é se reconciliar com o tempo”.
Para exasperá-lo ainda   mais     sua esposa recomendou-lhe    urinar sentado    
alegando  que ultimamente ele  anda muito    desconcentrado  e     molha o
tampo     da  privada.
Muito deprimente.  
Presuma o leitor que, diante desse agrupamento de circunstâncias,    a auto
estima de Felix   está indo    ladeira  abaixo,  embora   seu apartamento fique  no 
décimo   andar.
Começa, então,     recordar o tempo em que ainda trabalhava, porque disso ele
se lembra. 
Daquela sua secretária linda, a Maísa, quando   se debruçava sobre sua mesa
de trabalho para avisar que estava na  hora do almoço.
Ela  era, realmente, um   doce  de  pessoa.  Tão doce    que        Felix   sempre
almoçava com ela e  como ainda  não era diabético ela assumia a posição de
bombom post-refeição..
Bons tempos....
Lembra-se, também, que      examinava e dava       andamento   satisfatório a
 mais de dez processos por dia e não ficava possesso.
Nunca mais soube de Maísa  depois que se aposentou.
“Que pena”. Apenas divagações aqui deitadas sobre seu relacionamento com a secretária.
Voltando ao presente, atualmente ele só sai de casa para consultar médicos e
fazer exames passou a ser a sua distração e  de  quando em quando ele  se 
distrai também  contando   as estrelas em noites de  outono  da    janela da sala 
e os  dias  que faltam para a chegada do fim do mês quando      confrontará   os
valores de       sua aposentadoria  em sua conta bancária, vis a vis  contas que
terá a pagar.
Parece ativo o Felix?
Percebe o leitor que sua   memória não está tão ruim assim? 
Pois e,       lembra de    fatos que ocorreram   há mais de 70 anos
Embora, vez por outra esqueça    qual foi a última vez em que bebeu água.
Recorda com precisão o anúncio do antigo bonde:
“VEJA ILUSTRE PASSAGEIRO
O BELO TIPO FACEIRO
QUE O SENHOR TEM A SEU LADO
MAS NO ENTANTO, ACREDITE
QUASE MORREU DE BRONQUITE
SALVOU-O O RHUM CREOSOTADO”
Voltemos ao início da história enquanto não esqueço de como  encerra-la.
Último ato. 
“A  birra do Felix com  seu espelho do banheiro”.
 Aparentemente sem solução a oportunidade ocorre quando sua esposa viaja
para Petrópolis um fim de semana a convite de sua irmã  para   comemorar 
Bodas de não sei mais o que de     sua cunhada, evento que    não interessa
absolutamente  ao Felix.
 “É  muito faladeira e seus filhos são barulhentos”, murmura com seus botões.
Sua esposa diz que viaja mesmo sem ele e pergunta:
Vai ficar sozinho no fim de semana?
Não se preocupe, responde, pago Celestina (empregada diarista deles) para
perceber “ um extra” e preparar  refeições para mim.
De outra parte, convido o Prazeres, esse meu vizinho do 202, que é enxadrista
Ele insiste em que eu aprenda a jogar com ele.
Deixa estar que vou ficar bem.
Tudo bem concorda a consorte.
Dois dias depois a esposa regressa feliz da vida, contando um milhão      de
novidades,   bla bla bla..   Ambos se cumprimentam e ela pergunta se correu
tudo  a contento,  se ele não quebrou nenhuma perna, etc.
Segue para o quarto com sua exagerada mala e Felix   fica na sala assistindo
a um programa qualquer na TV.
De repente ela grita:
 Felix, cadê o espelho do banheiro?
Ele explica:
“Celestina atingiu-o com a vassoura na limpeza do banheiro e ele fez-se
estilhaçar”.
 E completa:” Tive que me desfazer dele”.
Estou muito contrariado mas veja que mandei colocar um outro espelho, no
lugar do falecido  , tamanho   menor,     para  você    concertar        seu      cabelo
 e  um  outro    na porta    do armário de roupa , do seu lado do armário,   igual
ao que lá    estava   tamanho corpo inteiro, como você gosta.
Como se observa tudo estrategicamente planejado por Felix.
 Ela responde:
 
Que desastre?  Celestina terá que repor o prejuízo.

Ele responde que já combinou que ela pagasse com trabalho extra.

....... Finalmente ri entre os dentes na sala......

 Resolvido o problema.

Custou-lhe   pagar ao porteiro para levar, e pôr fim ao mostrengo que o

incomodava  e dar      uma propina para Celestina   confirmar  o delito.

Livra-se Felix do espelho, afinal.

Que lhe causava tanto mal.

Felix continuará      envelhecendo e        cada vez mais     rabugento.

Sabemos, eu e meus    leitores, que ele        vive uma ilusão

Mas ele não.

Nota do autor.

“Trata-se de uma simples história, descrita   em tom jocoso.

METADE DELA É MENTIRA

A OUTRA PARTE É INVENÇÃO.”

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