Estou só dentro de mim mesmo
Enclausurado, atado.
Moro em uma residência com alguns
Familiares, mas sinto-me só.
Com meus lamentos.
Que são meus companheiros,
Desacompanhados como eu.
Meu quarto é meu único refúgio.
A cidade pulsa lá fora.
Fumaça, buzina, marola.
Uma obra ao lado do meu prédio
Uma britadeira me azucrina
Até as 17 horas da tarde.
Quando o trabalho termina.
E minha agonia continua...
Estou no armário da solidão permanente
Já é noite....
Saio.
Ardem meus olhos e os da cidade também.
Buzinas, fumaça de ônibus
Mendigos e moribundos
Isolados do mundo ...
Pessoas indo e vindo freneticamente de um lado para outro
Sem mesmo saber para onde vão.
Distúrbios, pega ladrão.
Confusão..
Contusão..
Uma moto passa entre os carros e arranca o retrovisor
de um motorista ,que blasfema e xinga o
desconhecido:
Puta que pariu!
Essa e a cidade que eu amo.
Idosos atravessando a rua fora do semáforo
Como se fossem robôs conduzidos por Deus
Deus os livre e guarde.
Latões de lixo nas calçadas da desonra
Na orla da praia as prostitutas recolhem os últimos tostões
Dos incautos.
Pelo menos os usuários pagam uma só vez por uma noite de amor
Por mulheres variadas, louras, morenas, mulatas e travestis
E sua responsabilidade acaba em uma noite....
Afortunados desafortunados.
Estou invisível,
Ninguém me vê nem me nota
Sento na mesa externa no bar do Cabral que já me conhece de
longa data, desde que me
aposentei
meu passatempo noturno.
Minha única ocasião
Para uma reflexão.
eu Fortunato diz: como vai, sai um Brahma gelada?
Sim, respondo, como sempre.
bebo com prazer a bebida que me acalenta.
Na Matriz, em frente, sai uma procissão agora
Em memória da fé em Nossa Senhora da Glória
Rezam pedindo ao pai nosso de cada dia
Café com pão e caviar misturados com água rás
Todavia,
Como é doce olhar....
As areias desertas e iluminadas de Copacabana
Da princesinha do mar que agora envelhecida
Aguarda a ambulância chegar
Está precisando de uma UTI
urgente.
Mas ninguém atende
Nem entende
É tarde, volto para minha residência
Meus familiares,
Vendo o noticiário nefasto da TV
Globo
Perguntam:
“Chegou hoje cedo da farra...
Não respondo.
Passo pela sala e entro no meu refúgio
Aquele quarto ao qual me referi no início da narrativa
Amanhã e dia de compras de mercado.
Deixo o cartão de crédito no cabeceira do quarto ao lado,
onde minha mulher passa a maior parte de seu precioso
tempo.
volto para o velho quarto antigo
Para conversar com meu piano
Antes de ler mais um capítulo do livro
"Em homenagem ao saudoso
José de Ribamar Ferreira Goulart"